Num momento de epifania vi que eu estava aqui, bem onde quis estar. Onde desejei, conheci, chorei, lutei para alcançar. Estou exatamente onde escolhi estar. Tenho todas as dores que quis ter um dia. A ansiedade pela prova, as noites sem dormir, trabalhos pra fazer, pesquisa, projeto. Eu estou aqui, onde tantas vezes eu desacreditei que estaria um dia. As portas se abriram, eu entrei. Não sabia a proporção da vitória. Quantas vezes, quando pequena, eu ajoelhei e baixinho pedi que Deus me permitisse ser médica. Quantas vezes o meu pedido, na hora de cortar o bolo, foi "que eu consiga ser médica". Naquela época, eu não tinha nenhuma ideia das dificuldades que enfrentaria. Tantas mudanças, tantas dores, tropeços, saudades, brigas e empecilhos. Do meu jeito, me mantive firme. Em pé. Caminhando. Passos lentos. E aqui estou. Bem onde eu quis estar. Nessa relação de amor e ódio com a medicina, tenho amado mais. Minha visão é tão limitada. Mas, apesar disso, alguma parte de mim está feliz. E sabe que tudo aconteceu exatamente como deveria. Sigo com fé. Com esperança de que tudo se ajeita. A saudade afoga, me tira o ar, aperta o peito, embaça a alma. Quantos cafés serão perdidos. As crianças que crescem, os pais que envelhecem. Os amigos mudam e a vida segue. Como sempre, tem que seguir. Quantas vezes eu serei ausente. Quantas vezes a falta grita em mim. Aquela boca que eu quis perto da minha. Aquele abraço que aperta e liberta. Aquele colo que acalanta o meu ser. Quantos serão apenas fotos e mensagens digitadas na tela de um celular. Quantas noites em claro. Mas eu estou aqui. Escolha minha, em meio a erros e acertos. E eu darei o melhor de mim. Serei o melhor que posso ser. Para mim e para o outro. Por cuidado, por vontade. Passo a passo. Um de cada vez. Sigo em frente. Mas hoje, resolvi sentar e olhar pra toda essa bagunça do meu ser. Tudo está precisamente onde deveria. Ao Universo: obrigada!